18º G.E Aldrin Barbosa

A história do escotismo contada pelo o próprio fundador.

Lord Baden Powell sempre foi creditado por ter fundado o Movimento Escoteiro. Abaixo ele nos conta que, como uma planta, o movimento “simplesmente cresceu”.

Por acaso, não fui eu quem iniciou o Movimento Escoteiro, porque tudo começou a se expandir muito rápido, sem que ninguém notasse.

Começou em 1908 – mas a idéia do Escotismo me veio muito antes disto. Quando eu era um garoto em Charterhouse, eu me divertia fazendo armadilhas para coelhos nas matas fora da escola. Se eu pegava um, o que dificilmente acontecia, eu o limpava e o cozinhava – e assim eu vivia.

Fazendo isto, eu aprendi a caminhar e fazer tocaia silenciosamente, conhecer o meu caminho pelos pontos da mata, a perceber rastros e seus significados, a usar lenha seca e morta de árvores que ainda estavam de pé ou quase caídas, e não do chão, para construir a fogueira, e fazer pequenas fogueiras sem fumaça, para não me dedurar para os professores; e se estes aparecessem, eu tinha o material para extinguir o fogo e sumir com as cinzas, enquanto eu me escondia atrás de alguma árvore fora da linha de vista deles.

Lá por 1983, eu comecei a ensinar a arte do “escotismo” (scouting) para jovens soldados em meu regimento. Quando estes jovens companheiros entravam para o exército, eles sabiam escrever, ler, matemática, tudo aprendido na escola. Eles eram bons rapazes, e eram ótimos em paradas, obedeciam ordens, se mantinham limpos, espertos e etc, mas eles nunca foram ensinados a serem homens; como cuidar de si mesmos, como aceitar responsabilidades e coisas assim. Eles não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive de educação fora da sala de aula.

Eles eram tratados como gado na escola, como gado no exército, e eles simplesmente agiam como se não tivessem idéias ou iniciativas próprias. Quando em ação eles executavam ordens perfeitamente, mas se o seu comandante era baleado, eles ajudavam tanto quanto carneirinhos sem o seu pastor. Você dizia a um deles para sair sozinho com uma mensagem na noite escura e as chances de que ele iria se perder eram de dez para um.

Eu queria que eles se sentissem como se eles fossem um desafio para qualquer inimigo, capazes de encontrar o seu caminho pelas estrelas, acostumados a perceber qualquer rastro e sinal, e se acostumarem a saber seu significado, e serem capazes de “fugir” da cozinha de campanha, que cozinhava para todo o regimento. Eu quis que eles tivesem coragem, auto confiança e sentimento de dever. Eu quis que eles soubessem fazer seu próprio rango. Resumindo: eu quis que cada homem fosse eficiente e confiável, como um todo.

E isso funcionou.

Os homens adoraram o treinamento, e o “escotismo” ficou muito popular no regimento.

Em 1899 eu escrevi um livrinho chamado “Auxílios para o escotismo” (Aids to Scouting). Ensinava técnicas de observação, como seguir um rastro, ensinava dedução, e como ler as informações deixadas pelas pistas.

Como um exemplo de dedução e observação, eu contei como a minha bicicleta havia sido roubada uma noite na Índia, e como eu segui as marcas e descobri o ladrão. Logo no começo do amanhecer, eu segui as marcas de pneu da bicicleta por uma estrada; o que não é facil de fazer se você olha apenas para a estrada, de perto. Mas, olhando pela superfície na direção do amanhecer, eu vi claramente o rastro dos pneus no orvalho da manhã.

O ladrão havia roubado minha bicicleta e havia levado ela empurrando, porque a roda da frente estava com um cadeado e ele não sabia como abri-lo. As pegadas eram de botas, e não de sandálias dos nativos. Eu percebi que ele passou a curva que levava para a cavalaria, então eu deduzi que ele não era da cavalaria, igualmente, ele passou reto na curva que dava na infantaria, mas, quando ele chegou na rua da artilharia, ele virou e entrou no acampamento. Eu só precisei falar para o responsável pela artilharia que eu achava que um de seus homens possuia uma bicicleta muito bonita com um cadeado na roda da frente. Em pouquíssimo tempo a bicicleta havia sido devolvida, achada debaixo da cama de um dos soldados.

Este incidente era um de muitos no livro para mostrar o quanto valia a observação e a dedução. Quando estavamos em Mafeking, em 1900, Lord Edward Cecil, que era meu CSO (chief staff officer) juntou alguns meninos da região e os transformou em cadetes, para transmitir ordens e mensagens, atuando como mensageiros e outros serviços básicos, liberando os soldados que antes cuidavam disto para irem à batalha.

Foi ai que descobrimos que meninos, quando valorosos e confiáveis, eram tão capazes e confiáveis como homens.

Também da experiência da Brigada de Rapazes (Boys Brigade), eu descobri que homens se voluntariavam e sacrificavam tempo e energia para treinar os garotos. Foi ai que a minha idéia que o escotismo podia ser educativo ficou mais forte, através do seguinte: O General Lord Allenby estava voltando para sua casa depois de um dia de trabalhos em campo quando o seu filho mais novo gritou “Pai, você acaba de levar um tiro! Você não é nem metade de um “escoteiro”. Um escoteiro olha pra cima e em volta de si mesmo, e você não me viu!!!” E lá estava o menino, sentado no alto de uma árvore, acima de sua cabeça, mas mais alto que ele, perto do topo da árvore, estava sua nova governanta. “O que raios você está fazendo ai?” falou o general.”Eu estou ensinando ao garoto escotismo!” ela disse. Ela havia sido treinada no Miss Charlotte College for Teachers, e eles estavam usando meu livro, Aids to Scouting, escrito para soldados, como livro de matéria, na arte da educação das crianças.

Daí, em 1907 eu, como general, estava inspecionando 7.000 jovens da Brigada de Rapazes (Boys Brigade) em Glasgow, em seu vigésimo aniversário, e o fundador, Sir William Smith, estava muito satisfeito com a força de seu movimento, que era de 54.000. Eu concordei com ele que era um número grande, mas acrescentei que se o treinamento realmente fosse atrativo para os jovens, este número seria dez vezes maior. “Como você faria isto atrativo?” ele perguntou.
“Bem, olhe os jovens da cavalaria, como que eles gostam do jogo do escotismo, que os transforma em verdadeiros homens e bons cidadãos”.
“E você poderia, por acaso, re-escrever o “Aids to Scouting” de uma maneira que ficasse atrativo para os meninos, ao invés dos soldados, e transformá-los em homens e bons cidadãos?”
Foi o que eu fiz.

Mas, antes de escrever o livro, eu planifiquei a idéia e a testei. Juntei 20 garotos de todos os tipos, alguns de Eton and Harrow, alguns do leste de Londres, alguns garotos “do campo” e outros vindos “das lojas”. Misturei eles como passas num pudim para viverem juntos em um acampamento. Eu queria ver o quanto esta idéia seria interessante para diferentes tipos de garotos.

Eu contei para um amigo o que eu estava fazendo, e disse que queria um lugar calmo, longe da imprensa e curiosos, onde eu poderia testar o que eu havia planejado. ele me ofereceu o uso de sua propriedade, a ilha de Brownsea, em Dorsetshire. Nós armamos o acampamento para as noites. Eu também contei com a presença do Major MacLaren e do Sir Percy Everett, para me ajudarem a ensinar os meninos a acampar, cozinhar, observar, deduzir, fazer pioneirias e artefatos de madeira, andar a cavalo, vida marinheira, salvamento de vidas, saúde, patriotismo e coisas assim.

O resultado obtido naquele acampamento me mostrou as possibilidades e quais seriam os treinamentos de escotismo para os rapazes. Então comecei a trabalhar de uma vez e escrevi o livro “Escotismo para Rapazes” (Scouting for Boys), com a intenção de que ele fosse útil para associações e organizações de rapazes já existentes, como a Brigada de Rapazes, a “Church Lads’ Brigade”, a YMCA e outras.

O livro foi publicado em fascículos vendidos a um preço bem barato. Antes que outras partes fossem publicadas, eu comecei a receber cartas de garotos que que começaram a praticar o escotismo por si próprios, não pertencendo a Brigada de Rapazes ou outra associação.

Nos próximos anos, os rapazes começaram a me escrever como eles começaram patrulhas e tropas, e como eles pegaram adultos para que fossem os seus chefes. Com tantas cartas, nós tivemos que criar uma espécie de “quartel general”, em uma sala pequena para lidar com a correspondência e suprir equipamento. Eu me lembro de minha secretária pensando que se nós tinhamos um estoque de doze chapelões, nós deviamos vendê-los todos!

Naquele ano, 1909, eu preparei uma reunião com os pretendentes a escoteiros no Palácio de Cristal. Quando eu cheguei lá, macacos me mordam, tinha muitos deles. A chuva estava forte, então nós os colocamos todos dentro do palácio e combinamos uma fila onde nós os contaríamos quando eles entravam por uma porta e saíam por outra.

Haviam 11 mil! Onze mil que apareceram lá porque quiseram! É por isso que eu digo que ninguém nunca viu como começou: o Escotismo começou sozinho.

Então, entre os jovens que passavam pela contagem, nós encontramos alguns grupos de garotas usando chapelão, colares e outros itens, como os garotos. “Quem são vocês?”, perguntamos.
“Oh, nós somos as meninas escoteiras”.
“Vocês são é loucas! (rindo)”.
“Não, somos meninas escoteiras”.
Então eu tive que escrever um livro para elas, dando à elas o nome de Guias, para diferenciar dos escoteiros. E foi assim que as guias começaram, por si próprias, e também crescem desde então.

Logo nós começamos a ouvir que as terras “além mar” e colônias estavam todos usando o escotismo, e antes disso, também soubemos que países estrangeiros estavam também traduzindo e fazendo brotar o escotismo.

Em 1912 eu tive que sair em “tour” pelos Estados Unidos, explicando o movimento em pelo menos 24 estados. Fui também ao Canadá, à Aústralia, à Africa do Sul, vendo o escotismo onde todos começaram, mas querendo saber cada vez mais sobre isto.

Era maravilhoso. Muitas pessoas criticaram o rápido crescimento com o que eles chamam de “crescimento cogumelo”, e profetizaram que depois da empolgação inicial, o movimento diminuiria, e provavelmente morresse após seu quinto ano.

O quinto ano veio, trazendo a Grande Guerra, e o movimento realmente tinha razões para morrer nesta época, já que muitos chefes e escoteiros mais velhos tiveram que ir servir o exército. Destes, 10 mil morreram em batalha. Mas o movimento não morreu. Os garotos eram colocados em cargos para fazer serviços para seu país, quando isto fosse necessário. O nosso medo é que os inimigos poderiam tentar sabotar os preparativos para a guerra, explodindo pontes, cortando linhas de telégrafo e tudo o mais, e de uma vez só escoteiros de todo o país montaram guarda para proteger estas comunicações noite e dia. Outros eram usados como mensageiros em escritórios governamentais, para substituir os homens enviados ao “front”.

Também foram convocados os escoteiros do mar para tomar conta das estações de guarda costeira, para liberar os homens dalí para o serviço com a Marinha. Por sorte, havíamos preparado um grande “rally” de escoteiros do mar na Ilha de Wight para um feriado de agosto, coincidentemente, a guerra começou no mesmo dia, e os escoteiros do mar já estavam à postos.

Então, nos pudemos mandar destacamentos e tomar conta de todas as estações. Estes destacamentos eram principalmente patrulhas sob o comando de seus próprios jovens. Nós tivemos coisa de 25 mil jovens em serviço para o país durante a guerra. Eles fizeram seu serviço excelentemente, e depois da guerra receberam agradecimentos oficiais do comando das forças armadas e do rei, por seus serviços.

Então, ao invés de morrer, o movimento mostrou toda sua vitalidade. Cresceu para a ocasião, e desde então vem crescendo em força e utilidade.

Nós temos hoje (n.t.1937 ) mais de um milhão de escoteiros britânicos e mais de 500 mil guias. Junto com isto, temos 52 países que adotaram o escotismo, e muitos deles também tem guias. Tudo junto, no mundo, temos 2.812.000 escoteiros e 1.304.107 guias.

 

Escoteiros do mundo,
irmãos para sempre

Também devemos lembrar que atrás destes milhões de jovens em diferentes países, também temos milhões que já estiveram na irmandade escoteira. Mas, muito mais importante do que os números, é o fato que os escoteiros de todo o mundo chegaram num estágio de serem muito amigáveis uns com os outros.O Jamboree Americano, em Washington, este ano, teve 28 mil jovens, seguido pelo Jamboree Mundial. 

na Holanda, também com 28 mil participantes de todos os países, que vieram por seus próprios custos. Isto tudo mostra o entusiasmo dos jovens em fazer amizades em muitas outras nações.

Existe no movimento um espírito de felicidade e camaradagem que não falha em trazer algo que todos pedimos aos céus: Bons pensamentos e paz no mundo.

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